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Quando o sofrimento explode: tragédias familiares não nascem do nada

  • Foto do escritor: Ana Claudia Melo
    Ana Claudia Melo
  • 14 de fev.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 15 de fev.

Imagem com a palavra tragédia em inglês: "tragedy"

 

      Há notícias que nos arrasam. Quando tomei conhecimento da tragédia ocorrida em Itumbiara/GO, confesso que fiquei profundamente mexida. Como psicóloga, como mãe, como mulher, é impossível não sentir indignação e dor diante da morte de duas crianças e do suicídio do próprio pai. Nada — absolutamente nada — justifica o assassinato dos filhos. E nada legitima o suicídio como resposta ao sofrimento. Ademais, a traição conjugal, por mais dolorosa que seja, não é causa legítima de violência letal.

 

      Ao mesmo tempo, como psicóloga, há mais de 20 anos trabalhando no atendimento a pacientes casados e a casais, posso dizer algo com serenidade clínica: tragédias familiares raramente começam no dia em que acontecem. Elas costumam ser o ponto final de um processo silencioso de desorganização emocional, de sofrimento acumulado e de falhas graves na capacidade de regulação psíquica. Isso não é relativizar a responsabilidade individual. É compreender que o colapso emocional quase sempre tem história.

 

Tragédias familiares não nascem do nada

 

      Na prática clínica, aprendi que o sofrimento humano raramente explode sem sinais prévios. Ele se acumula. Ele se infiltra nas relações. Ele se mistura com orgulho, vergonha, humilhação, sensação de perda e descontrole. Quando não encontra espaço de elaboração, ele pode se transformar em algo perigoso.

 

Imagem com uma máscara preta e uma máscara branca indicando a tragédia com simbolismo do indivíduo que pode assumir diferentes personas, indicando dualidade, emoções ou transtornos da personalidade

      Karl Jaspers, em sua Psicopatologia Geral, já alertava para a importância de compreender os processos psíquicos em sua continuidade, e não apenas no ato final. A violência extrema não costuma surgir como um raio em céu azul. Ela é precedida por pensamentos rigidamente dicotômicos, por falhas graves na tolerância à frustração e por uma incapacidade de simbolizar a dor de forma saudável.

 

     É fundamental afirmar com clareza: pessoas emocionalmente estruturadas sofrem com uma traição, choram, se revoltam, se separam, buscam apoio. Mas não matam. Quando alguém responde à dor com aniquilação, estamos diante de uma ruptura psíquica profunda.

 

Traição não é causa de homicídio

 

      Em momentos como esse, a sociedade tende a procurar um culpado rápido. Muitas vezes, a esposa passa a ser vista como responsável indireta pela tragédia, como se o adultério fosse um gatilho inevitável para o desfecho fatal. Essa lógica é perigosa e injusta.

 

      A responsabilidade pela violência é individual. A despeito da intensidade emocional que uma traição pode provocar, ela não retira de ninguém a responsabilidade por seus atos. Como bem pontua a psicologia contemporânea, eventos externos podem funcionar como gatilhos, mas não determinam comportamentos extremos. Entre o fato e a ação existe um mundo interno — crenças, valores, capacidade de regulação, história emocional.

 

      Embora seja compreensível a revolta social, é preciso evitar a simplificação moral que transforma uma mulher traída ou traidora na “causa” da morte dos próprios filhos. Isso desvia o foco da verdadeira discussão: o sofrimento psíquico não tratado.

 

O que a psicopatologia e a psiquiatria apontam em casos como esse

 

      Na literatura psiquiátrica, existem descrições de fenômenos conhecidos como homicídio-suicídio (Marzuk, Tardiff e Hirsch) ou suicídio ampliado (Werlang e Sá). Não estou diagnosticando o caso específico, mas explicando um padrão estudado há décadas. Em algumas situações, o indivíduo mata familiares e depois tira a própria vida, muitas vezes sob um estado de colapso emocional grave. Autores como Joiner, em seus estudos sobre comportamento suicida, ressaltam que o suicídio envolve a combinação de desesperança, percepção de derrota e distorções cognitivas intensas.


Quando esse quadro se associa a traços impulsivos, narcisismo ferido ou histórico de transtorno depressivo maior com características psicóticas ou mesmo transtornos da personalidade com traços de impulsividade, o risco de ações extremas aumenta. Isso não transforma o agressor em vítima, mas ajuda a compreender que havia sofrimento grave e desorganização mental importante.


É um caso também de violência vicária - um conceito que tem ganhado destaque em pesquisas recentes. Trata-se da violência exercida contra os filhos com o objetivo de causar o maior sofrimento possível à mãe. Aqui, o filho não é visto como um sujeito, mas como um instrumento de punição contra a parceira ou ex-parceira.


Ainda assim, é imprescindível reafirmar: sofrimento não autoriza violência. Dor não legitima destruição.

 

O que podemos aprender com casos como esse

 

      Casos como esse nos obrigam a olhar para além do choque inicial. Eles nos convidam a refletir sobre prevenção, sobre cultura emocional e sobre responsabilidade coletiva. Alguns aprendizados são inevitáveis:

 

  • sofrimento emocional precisa ser levado a sério antes que vire explosão;

  • homens, especialmente, ainda resistem a buscar ajuda psicológica por vergonha ou orgulho;

  • conflitos conjugais não resolvidos tendem a se agravar quando não há diálogo mediado;

  • sinais de desespero, discurso de vingança ou ideação suicida jamais devem ser ignorados;

  • procurar terapia não é sinal de fraqueza, mas de maturidade.

 

      Na clínica, já atendi casais à beira do colapso. Já acompanhei homens devastados por separações e mulheres esmagadas por frustrações profundas. Quando o sofrimento encontra espaço seguro para ser elaborado, ele não explode. Ele se transforma.

 

O papel da psicoterapia na prevenção

 

      A Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha diretamente com pensamentos automáticos catastróficos, com interpretações distorcidas de perda e com crenças rígidas do tipo “minha vida acabou” ou “não posso suportar essa humilhação”. Ao aprender a regular emoções intensas, o indivíduo amplia sua capacidade de escolha.

 

      Eu costumo dizer aos meus pacientes que emoções não são inimigas. Elas são mensageiras. O problema começa quando a pessoa acredita que precisa agir imediatamente sob o impacto da emoção. A psicoterapia ensina pausa, reflexão e reconstrução de sentido.

Quando vejo tragédias como essa, eu fico profundamente comovida porque tenho convicção de que, na maioria das vezes, havia sinais antes. E sinais existem para serem acolhidos, não ignorados.

 

A sociedade não pode normalizar a violência

 

      Vivemos em um tempo de impulsividade e exposição. A honra ferida vira espetáculo. O sofrimento vira narrativa pública. Mas nenhuma cultura saudável pode tolerar a ideia de que a dor pessoal justifique a eliminação do outro — muito menos de crianças inocentes. Proteger a vida é um valor civilizatório. Cuidar da saúde mental é um compromisso ético. Precisamos aprender, enquanto sociedade, que sofrimento precisa de tratamento, não de silêncio e muito menos de violência.

 

Se o sofrimento está ficando grande demais, busque ajuda

 

      Se você sente que está atravessando um momento de desespero, perda, humilhação ou raiva intensa, não espere que isso se transforme em algo maior. A psicoterapia é um espaço seguro para elaborar conflitos, reorganizar pensamentos e recuperar equilíbrio emocional.

 

      Ao final desta página, você encontrará o botão “Fale comigo”. Se precisar, clique e vamos conversar com serenidade e responsabilidade. O sofrimento pode ser transformado — antes que ele exploda.

Ana Cláudia Melo – Psicóloga


Psicóloga Ana Cláudia Melo

CRP: 02/13277

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