“O inferno são os outros?” Quando o outro não é prisão, mas possibilidade
- Ana Claudia Melo
- 7 de fev.
- 4 min de leitura

“O inferno são os outros.”
A célebre frase de Jean-Paul Sartre, retirada da peça Entre Quatro Paredes, tornou-se uma espécie de resumo existencial da experiência humana moderna. Muitas pessoas a repetem como se ela descrevesse uma verdade absoluta sobre a convivência: o outro como ameaça, julgamento, opressão e limite. Confesso que, ao longo dos meus mais de vinte anos de clínica psicológica, já ouvi essa frase ser usada inúmeras vezes para justificar afastamentos, rupturas e desistências dos vínculos.
No entanto, a prática clínica me obriga a fazer uma leitura mais cuidadosa — e mais humana. É verdade que a maioria dos conflitos psíquicos envolve outras pessoas: pais, parceiros, filhos, chefes, colegas. Mas isso não significa que o outro seja, em si, o inferno. O sofrimento surge, quase sempre, não da existência do outro, mas da forma como nos relacionamos com o olhar, a expectativa e a presença dele.
O olhar do outro pode aprisionar — mas também pode sustentar
Sartre tinha razão ao apontar que o olhar do outro pode nos objetificar. Quando vivo apenas para corresponder, agradar ou evitar rejeição, o outro se transforma em espelho cruel, e minha identidade fica aprisionada. Na clínica, vejo com frequência pessoas que adoeceram porque tentaram viver sob olhares excessivamente exigentes ou desumanizadores.
Apesar disso, reduzir o outro a “inferno” é empobrecer a experiência humana. O próprio Sartre escrevia a partir de uma visão radical de liberdade individual, mas outras tradições filosóficas e psicológicas mostram algo diferente: é no encontro que nos tornamos quem somos. O sofrimento não nasce da alteridade, mas da impossibilidade de sustentar o vínculo sem se perder de si.
Não existimos fora da relação
Martin Buber, filósofo do diálogo, afirmava que o humano só se realiza plenamente na relação Eu-Tu. Para ele, não há identidade isolada; há identidade construída no encontro. Essa visão encontra eco direto na psicologia contemporânea e na clínica psicoterápica. Não é raro que pacientes cheguem dizendo: “Eu não sei mais quem eu sou”, e, ao investigarmos, percebemos histórias marcadas por vínculos rompidos, relações empobrecidas ou isolamento afetivo.
Na psicologia do desenvolvimento, Donald Winnicott já dizia algo semelhante: o sujeito não nasce pronto; ele se constitui na relação. Sem o outro suficientemente presente, não há amadurecimento emocional saudável. Assim, não somos nada apesar dos outros — somos alguém por causa dos outros.
O amor ao outro não é ameaça à identidade

Aqui, faço questão de trazer uma contraposição ainda mais profunda. No campo espiritual e filosófico, Jesus afirma que o maior mandamento é amar a Deus e, em seguida, amar o próximo como a si mesmo. Essa ordem não diminui o sujeito; ela o estrutura. O amor ao outro não anula a identidade, mas a confirma.
Na clínica, percebo que muitos sofrem não porque amam demais, mas porque não aprenderam a amar sem se anular. Confundir amor com submissão, vínculo com dependência ou convivência com prisão é uma distorção que produz sofrimento psíquico. O problema não é o outro; é a ausência de limites internos.
Quando o outro vira inferno
É importante dizer com clareza: há relações adoecedoras. Há vínculos marcados por abuso, violência emocional, controle e desrespeito. Nesses casos, o outro pode, sim, se tornar fonte intensa de sofrimento. Mas mesmo aí, o inferno não é a existência do outro, e sim a impossibilidade de se proteger, se diferenciar e se posicionar.
Na prática clínica, observo que o sofrimento se intensifica quando o sujeito acredita que só existem duas saídas: suportar tudo ou se isolar completamente. A psicoterapia abre uma terceira via: aprender a estar em relação sem se perder de si.
A clínica confirma: o sofrimento é relacional, mas a cura também
Do ponto de vista psicológico, isso é central. A maior parte das dores humanas nasce no campo das relações — rejeição, abandono, traição, humilhação. Mas é também no campo relacional que ocorre a reparação. A própria psicoterapia é, antes de tudo, uma relação: ética, técnica, sustentada e transformadora.
Em minha experiência, quando o paciente compreende que pode existir diante do outro sem viver sob constante ameaça, algo se reorganiza profundamente. O outro deixa de ser inferno e passa a ser território de encontro, limite e reconhecimento.
Não somos nada sozinhos
Digo isso com convicção clínica e humana: não somos absolutamente nada sem a existência de outras pessoas. É no outro que nos reconhecemos, que somos nomeados, que somos amados, feridos, reconstruídos. A tentativa de viver sem o outro pode parecer proteção, mas geralmente leva ao empobrecimento emocional. O desafio não é eliminar o outro, mas aprender a conviver com ele sem se anular. É nesse ponto que a psicoterapia se torna um espaço privilegiado de aprendizado relacional.
Um convite à reflexão e ao cuidado
Se você sente que os outros têm pesado demais, que o olhar alheio tem definido sua vida ou que os vínculos têm sido fonte constante de sofrimento, talvez não seja o outro o problema — mas a forma como você tem se colocado nas relações. A psicoterapia pode ajudar a construir vínculos mais livres, mais conscientes e mais humanos. Se sentir que precisa de ajuda, conversar com um profissional pode ser um passo importante — e não há problema nenhum nisso. Clique no botão abaixo e fale comigo agora mesmo.
Ana Cláudia Melo - Psicóloga


