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Maus-tratos a animais e o que isso revela sobre a saúde emocional

  • Foto do escritor: Ana Claudia Melo
    Ana Claudia Melo
  • 29 de jan.
  • 4 min de leitura
imagem de um cachorro em crochê sem uma das pernas indicando maus tratos

       Escrevo este texto tomada por indignação. Como psicóloga, como cidadã e como ser humano, é impossível ficar inerte diante de um caso como o do cachorro Orelha, espancado brutalmente por quatro jovens até ficar à beira da morte, enquanto outro animal ainda era arrastado e quase afogado. Não se trata de “brincadeira”, de “excesso juvenil” ou de um “ato impensado”. Trata-se de algo nefasto, cruel, que fere a dignidade da vida e exige reflexão séria — psicológica, social e ética.

 

      Na clínica, aprendi que a violência nunca nasce do nada. Ela se manifesta primeiro onde há menos resistência, menos defesa e menos chance de reação. Animais, crianças, idosos e pessoas vulneráveis costumam ser os primeiros alvos quando algo está profundamente desorganizado no mundo interno de alguém. Ignorar isso é fechar os olhos para sinais precoces de adoecimento emocional grave.

 

O que a psicopatologia diz sobre maus-tratos a animais

 

      Do ponto de vista da psicopatologia, a crueldade deliberada contra animais não é um comportamento neutro. Ela aparece, há décadas, descrita na literatura como um importante sinal de alerta. Autores clássicos e contemporâneos apontam que a agressão a animais pode estar associada a déficits empáticos, dificuldades de regulação emocional, exposição prévia à violência e, em alguns casos, a transtornos mais graves do desenvolvimento da personalidade.

 

      O próprio DSM-5 menciona a crueldade com animais como um dos critérios diagnósticos possíveis no Transtorno da Conduta, especialmente em crianças e adolescentes. Isso não significa que todo jovem que maltrata um animal terá, necessariamente, um transtorno psiquiátrico definido. Significa, sim, que algo importante está errado e não pode ser relativizado.


Além do mais, a agressão a animais pode ser um precursor do Transtorno de Personalidade Antissocial (psicopatia) na vida adulta. Autores renomados, como Robert Hare, especialista em psicopatia, destacam que a falta de remorso e a incapacidade de empatia com o sofrimento alheio — começando frequentemente pelos animais — são sinais de alerta vermelhos para a saúde emocional.

 

O que esses atos costumam revelar sobre o "mundo interno"

 

      Na prática clínica e na literatura psicológica, comportamentos como esses costumam apontar para um conjunto de fatores, que raramente aparece isolado. Entre os mais frequentes, observamos:

 

  • dificuldade ou ausência de empatia genuína;

  • prazer ou indiferença diante do sofrimento alheio;

  • histórico de exposição à violência doméstica ou social;

  • necessidade de afirmação de poder e controle;

  • impulsividade extrema e falhas na inibição moral;

  • banalização da dor como algo “normal”.

 

      É importante dizer com clareza: a violência contra animais não é só sobre o animal. Ela fala sobre a forma como aquele sujeito se relaciona com o outro, com limites, com regras e com a própria agressividade. A despeito de muitos tentarem justificar como “fase” ou “imaturidade”, a psicologia mostra que esses atos são aprendidos, reforçados ou tolerados em algum contexto.

 

Maus-tratos a animais e o ciclo da violência

 

      Há uma relação bem documentada entre crueldade contra animais e outras formas de violência. Estudos internacionais apontam que pessoas que agridem animais apresentam maior probabilidade de, no futuro, se envolverem em agressões contra pessoas, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Conquanto isso não seja uma regra absoluta, o risco é real e conhecido.

Na clínica, eu costumo dizer que a violência funciona como um músculo. Quanto mais ela é usada sem consequência, mais forte e naturalizada ela se torna. Quando a sociedade minimiza esses atos, envia uma mensagem perigosa: a de que o sofrimento do outro pode ser ignorado.

 

Orientações a pais e mães: o que fazer se o filho maltrata um animal

 

      Esse é um ponto delicado, mas essencial. Se um pai ou uma mãe percebe que o filho está machucando, ameaçando ou demonstrando prazer em ferir um animal, não é o momento de negar, encobrir ou relativizar. Algumas orientações importantes:

 

  • interrompa imediatamente o comportamento, com firmeza e clareza;

  • deixe explícito que se trata de algo grave e inaceitável;

  • investigue o contexto emocional e familiar da criança ou adolescente;

  • observe se há outros sinais de agressividade, crueldade ou isolamento;

  • procure ajuda profissional especializada o quanto antes;

  • nunca trate como “brincadeira” ou “coisa de criança”.

 

      Buscar psicoterapia nesse momento não é punição, é cuidado. Muitas vezes, esse comportamento é um pedido silencioso de ajuda, ainda que expresso de forma profundamente inadequada.

 

Não é apenas um problema individual: é um alerta social

 

      Casos como esse não dizem respeito apenas aos jovens envolvidos ou às suas famílias. Eles falam de uma sociedade que, em muitos momentos, banaliza a violência, consome brutalidade como entretenimento e falha em ensinar limites éticos básicos. A forma como tratamos os seres mais indefesos revela muito sobre quem somos enquanto coletivo.


Como psicóloga, acredito que não existe saúde mental possível em uma sociedade que tolera a crueldade. O cuidado com a vida — humana ou animal — não é opcional, é um marcador civilizatório. Quando um animal é violentado, algo em nós, enquanto sociedade, também adoece.

 

Violência não se normaliza, se enfrenta

 

       Se você percebe comportamentos agressivos, cruéis ou desumanizados em alguém próximo, não minimize. A psicoterapia é um espaço sério para compreender, intervir e prevenir a escalada da violência. Cuidar da saúde emocional é também proteger vidas. Se precisar de orientação, procure ajuda profissional. Nenhuma forma de maus-tratos a qualquer ser vivo deve ser tolerada.

Por Ana Cláudia Melo – Psicóloga

 

 

 

Psicóloga Ana Cláudia Melo

CRP: 02/13277

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