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Ortorexia: quando a busca por uma alimentação “perfeita” se torna uma prisão

Foto do escritor: Ana Claudia Melo
Ana Claudia Melo
13 de jan.
4 min de leitura
ortorexia

 

“Nada em excesso.” — Aristóteles

 

      Há prisões que não têm grades. Elas se constroem com regras rígidas, listas intermináveis e a sensação constante de que nunca se está fazendo o suficiente. A ortorexia costuma nascer assim: como um desejo legítimo de cuidar da saúde, que aos poucos se transforma em obsessão, medo e isolamento. Na clínica, já acompanhei pessoas que se alimentavam “corretamente”, mas viviam emocionalmente exaustas. Comiam certo — e viviam mal.

 

      A pergunta que guia este texto é simples e profunda: quando o cuidado deixa de ser saúde e passa a ser controle?

 

O que é ortorexia e por que ela merece atenção clínica

 

      A Ortorexia Nervosa ainda não aparece como diagnóstico formal no DSM-5 nem na CID-11, mas é amplamente discutida na literatura científica desde que foi descrita por Steven Bratman. Trata-se de um padrão alimentar marcado por obsessão patológica por alimentos considerados “puros”, “limpos” ou “saudáveis”, acompanhado de rigidez, culpa e ansiedade. Paulo Dalgalarrondo lembra que nem todo sofrimento precisa estar nomeado em manuais diagnósticos para ser real. A clínica antecede os manuais, e a ortorexia é um exemplo disso: um sofrimento contemporâneo, coerente com a cultura do desempenho, do controle e da perfeição.

 

Quando o saudável vira regra inflexível

 

      O traço mais marcante da ortorexia não é o alimento em si, mas a rigidez. A pessoa passa a organizar a vida em torno da comida “permitida”, evitando situações, pessoas e contextos que ameacem esse controle. Na prática clínica, isso costuma aparecer como:

 

  • Listas cada vez mais restritivas de alimentos

  • Medo intenso de “errar” na alimentação

  • Culpa exagerada após pequenas transgressões

  • Horas gastas planejando refeições

  • Evitação de eventos sociais envolvendo comida

  • Sensação de superioridade moral ligada ao comer “certo”

 

      O alimento deixa de nutrir e passa a vigiar.

 

Ortorexia não é disciplina — é ansiedade disfarçada

 

      Um erro comum é confundir ortorexia com força de vontade ou estilo de vida saudável. Mas, ao contrário da escolha consciente, a ortorexia é marcada por sofrimento, medo e perda de flexibilidade. Christopher Fairburn destaca que, nos transtornos alimentares e nos comportamentos alimentares disfuncionais, o critério central não é o que se come, mas o grau de sofrimento e prejuízo associado. Quando a alimentação saudável gera ansiedade constante, rigidez extrema e isolamento, algo deixou de estar saudável.

 

      Ao longo dos anos de clínica, percebo que muitas pessoas com ortorexia usam a alimentação como tentativa de controlar um mundo interno percebido como caótico.

 

Por que a Ortorexia surge?

 

      A ortorexia não surge no vazio. Ela é filha do seu tempo. Vivemos uma cultura que glorifica o autocontrole, demoniza o prazer e transforma saúde em identidade moral. Entre os fatores frequentemente associados estão:

 

  • Necessidade intensa de controle

  • Perfeccionismo elevado

  • Ansiedade e medo de adoecer

  • Dificuldade de lidar com incertezas

  • Pressão social por desempenho e autocontrole

  • Uso da alimentação como regulador emocional

 

       Na clínica, observo que a ortorexia muitas vezes aparece em pessoas muito exigentes consigo mesmas, que aprenderam que errar não é opção.

 

As consequências invisíveis da ortorexia

 

Embora socialmente valorizada em muitos contextos, a ortorexia pode gerar prejuízos importantes. O sofrimento costuma ser silencioso, mas progressivo. Entre as consequências mais comuns estão:

 

  • Empobrecimento da vida social

  • Ansiedade constante em torno da comida

  • Rigidez cognitiva e emocional

  • Isolamento

  • Sensação de estar sempre em falta

  • Perda do prazer alimentar

 

      A vida vai ficando estreita, organizada em torno de regras que prometiam saúde, mas entregaram prisão.

 

Ortorexia e a ilusão do controle total

 

      A ortorexia carrega uma promessa sedutora: “Se eu controlar tudo o que entra no meu corpo, estarei seguro(a).” O problema é que a vida não se deixa controlar dessa forma. O filósofo Byung-Chul Han alerta que a obsessão contemporânea pelo desempenho e pelo autocontrole produz sujeitos exaustos, culpados e solitários. A ortorexia é uma expressão alimentar dessa lógica. Na clínica, trabalho muito a ideia de que saúde inclui flexibilidade, prazer e convivência — não apenas regras.

 

Existe tratamento? O papel da psicoterapia

 

      Sim, existe cuidado possível — e necessário. A psicoterapia ajuda a pessoa a reconstruir a relação com a comida, com o corpo e consigo mesma. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) atua em:

 

  • Identificação de crenças rígidas sobre saúde e pureza

  • Redução do pensamento dicotômico (“certo x errado”)

  • Desenvolvimento de flexibilidade cognitiva

  • Reconexão com sinais internos de fome e saciedade

  • Ampliação do repertório emocional

  • Resgate do prazer sem culpa

 

      Não se trata de abandonar o cuidado, mas de retirá-lo do campo da obsessão.

 

Quando o cuidado precisa de cuidado

      Se você percebe que sua alimentação se tornou fonte constante de ansiedade, rigidez e isolamento; se o medo de errar pesa mais do que o prazer de viver; ou se a comida passou a ocupar um espaço excessivo na sua vida emocional, isso merece atenção. Ao longo da minha experiência clínica, vi muitas pessoas chegarem dizendo: “Mas eu só quero ser saudável.” Quando olhávamos com cuidado, o que aparecia era medo, cobrança e exaustão.

 

Saúde não é prisão

 

      Cuidar do corpo não deveria significar adoecer a mente. A ortorexia é um sinal de que algo precisa ser revisto com mais gentileza e consciência. A psicoterapia oferece um espaço seguro para reconstruir a relação com a comida, com o controle e com a própria vida. Se sentir que precisa de ajuda, estou aqui para caminhar com você. Fale comigo, clicando no botão abaixo.

Ana Cláudia Melo - Psicóloga



 

 

 

Psicóloga Ana Cláudia Melo

CRP: 02/13277​

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