TARE ou ARFID: Quando comer não tem a ver com peso, estética ou vaidade

“Nem tudo o que limita é visível.” — Hannah Arendt
Há sofrimentos que passam despercebidos porque não se encaixam nos estereótipos mais conhecidos. O ARFID ou TARE é um deles. Diferentemente de outros transtornos alimentares, aqui não há medo de engordar, busca por magreza ou obsessão estética. Ainda assim, o sofrimento é real, persistente e, muitas vezes, profundamente limitante.
Na clínica, já acompanhei pacientes que chegaram dizendo: “Eu sempre fui assim” ou “É só um paladar difícil”. Com o tempo, ficava claro que não se tratava de preferência alimentar, mas de um transtorno que restringia a vida, a saúde e as relações.
O que é TARE ou ARFID segundo o DSM-5 e a psicopatologia
O Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo ( TARE ou ARFID - Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder) está descrito no DSM-5 e na CID-11 como um padrão persistente de restrição alimentar que leva a prejuízos significativos, sem relação com imagem corporal ou peso. Essa é a diferença central que o distingue da anorexia e da bulimia. Segundo Paulo Dalgalarrondo, o ARFID revela como o ato de comer pode ser atravessado por medo, repulsa ou experiências sensoriais aversivas, transformando uma necessidade básica em fonte constante de angústia. Os critérios diagnósticos incluem, entre outros:
Restrição alimentar significativa
Perda de peso ou dificuldade em ganhar peso (especialmente em crianças e adolescentes)
Deficiências nutricionais
Dependência de suplementos alimentares
Prejuízo psicossocial importante
Tudo isso sem preocupação com forma corporal ou emagrecimento.
Quando comer vira ameaça
No TARE, a comida não é vista como prazer, conforto ou controle. Ela é percebida como risco. Esse risco pode assumir diferentes formas, e a clínica mostra que nem sempre ele é facilmente verbalizado. As apresentações mais comuns envolvem:
Medo intenso de engasgar, vomitar ou passar mal
Repulsa a texturas, cheiros ou cores de alimentos
Evitação baseada em experiências negativas anteriores
Seletividade alimentar extrema
Ansiedade intensa diante de refeições
Com o tempo, a alimentação vai se estreitando até se tornar um território de constante vigilância.
TARE ou ARFID não é “frescura”, nem escolha
Um dos maiores equívocos — e uma das maiores fontes de sofrimento — é tratar o ARFID como capricho, birra ou exagero. Isso vale especialmente quando o transtorno aparece na infância, mas também quando persiste na vida adulta. Na prática clínica, vejo o quanto esse julgamento agrava o quadro. A pessoa passa a se sentir incompreendida, pressionada e culpada por algo que não controla. Comer deixa de ser apenas difícil; torna-se um campo de vergonha.
O sofrimento não está no “não gostar” do alimento, mas na incapacidade de lidar emocionalmente com ele.
Por que o TARE surge?
O TARE também não tem causa única. Ele emerge da interação entre fatores emocionais, sensoriais, psicológicos e, em alguns casos, experiências traumáticas relacionadas à alimentação. Entre os fatores frequentemente associados estão:
Hipersensibilidade sensorial
Experiências negativas com comida (engasgos, vômitos, mal-estar)
Ansiedade elevada
Dificuldade de regulação emocional
Transtornos do neurodesenvolvimento (em alguns casos)
Histórico de pressão excessiva para comer
Ao longo da clínica, percebo que o TARE muitas vezes é mantido pelo medo — e não pela vontade.
As consequências do TARE ou ARFID ao longo da vida
Embora menos conhecido do que outros transtornos alimentares, o ARFID pode trazer consequências significativas, especialmente quando não reconhecido precocemente. Entre os impactos mais comuns estão:
Déficits nutricionais importantes
Prejuízos no crescimento e desenvolvimento
Evitação de situações sociais envolvendo comida
Ansiedade antecipatória
Isolamento
Dependência excessiva de rotinas rígidas
A vida social, familiar e profissional vai sendo organizada em função da restrição alimentar.
TARE ou ARFID na vida adulta: um sofrimento pouco falado
Embora muitas pessoas associem o ARFID à infância, ele também pode persistir — ou surgir — na vida adulta. Nesses casos, o sofrimento costuma ser ainda mais silencioso, pois há vergonha em admitir dificuldades com algo considerado “básico”. Na clínica, já acompanhei adultos que passaram anos evitando viagens, encontros e ambientes sociais por medo da comida. Não era falta de vontade de conviver, mas medo real e intenso.
Ortorexia e TARE não são a mesma coisa
Embora a ortorexia e o Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (ARFID) envolvam restrições alimentares, as motivações psicológicas, os padrões de comportamento e os impactos clínicos são diferentes. Compreender essa distinção ajuda a evitar rótulos equivocados e favorece o cuidado adequado em psicoterapia. A tabela abaixo resume as principais diferenças:
Diferenças entre Ortorexia e ARFID
Critério | Ortorexia | ARFID (Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo) |
Motivação principal | Busca obsessiva por “alimentação saudável”, “limpa” ou “pura” | Evitação alimentar por medo, aversão sensorial ou falta de interesse |
Foco psicológico | Controle, perfeição e moralização da comida | Ansiedade, medo, sensibilidade ou desinteresse alimentar |
Relação com o corpo | Geralmente não há distorção de imagem corporal | Também não há distorção de imagem corporal |
Medo central | Medo de adoecer, “contaminar o corpo” ou perder controle | Medo de engasgar, vomitar, passar mal ou rejeição sensorial |
Tipo de restrição | Alimentos considerados “não saudáveis” | Texturas, cheiros, cores, temperaturas ou grupos alimentares |
Influência cultural | Alta influência de discursos de saúde, redes sociais e estilo de vida | Pouca influência cultural; padrão mais individual e persistente |
Rigidez comportamental | Elevada rigidez e regras autoimpostas | Restrição baseada em ansiedade ou sensibilidade |
Sofrimento subjetivo | Culpa intensa ao “transgredir” regras alimentares | Angústia antecipatória diante da alimentação |
Impacto social | Isolamento por evitar refeições sociais | Dificuldade em contextos sociais que envolvem comida |
Reconhecimento diagnóstico | Ainda não formalizado no DSM-5 | Transtorno reconhecido no DSM-5 |
Risco nutricional | Pode existir, dependendo do grau de restrição | Frequente e clinicamente relevante |
Resposta comum em clínica | Costuma resistir à flexibilização alimentar | Geralmente busca alívio do medo e da ansiedade |
Uma observação importante
Nem toda restrição alimentar é transtorno. O que diferencia cuidado com a alimentação de sofrimento psíquico é o grau de rigidez, angústia, prejuízo funcional e impacto na vida emocional e social. É por isso que uma avaliação clínica cuidadosa é essencial. Na psicoterapia, o objetivo não é rotular, mas compreender o sentido do comportamento alimentar e ajudar a pessoa a construir uma relação mais segura, flexível e saudável com a comida — e consigo mesma.
Existe tratamento? O papel da psicoterapia
Sim, existe tratamento, e ele exige cuidado, paciência e abordagem especializada. A psicoterapia é fundamental para compreender os medos associados à alimentação e ampliar gradualmente o repertório alimentar e emocional. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) atua em:
Identificação dos medos centrais relacionados à comida
Trabalho com ansiedade e respostas de evitação
Exposição gradual e segura a alimentos temidos
Reestruturação de crenças catastróficas
Desenvolvimento de maior flexibilidade emocional
Em muitos casos, o trabalho conjunto com nutricionista e médico é essencial.
Quando procurar ajuda?
Se você ou alguém próximo vive uma relação marcada por medo, evitação e sofrimento em torno da alimentação, mesmo sem preocupação com peso ou estética, isso merece atenção. O ARFID é um transtorno real — e tratável. Ao longo da minha prática clínica, vi pessoas redescobrirem o comer não como ameaça, mas como parte possível da vida.
Quando comer se torna difícil, cuidar é necessário
O ARFID não é frescura, nem falta de vontade. É um transtorno que limita a vida e merece cuidado especializado. A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender esses medos, ampliar possibilidades e reconstruir a relação com a alimentação de forma gradual e respeitosa. Se sentir que precisa de ajuda, estou aqui para caminhar com você. Clique no botão abaixo e fale comigo hoje mesmo.
Ana Cláudia Melo – Psicóloga Clínica


