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TARE ou ARFID: Quando comer não tem a ver com peso, estética ou vaidade

Foto do escritor: Ana Claudia Melo
Ana Claudia Melo
14 de jan.
5 min de leitura
ARFID transtorno alimentar restritivo/evitativo

 

“Nem tudo o que limita é visível.” — Hannah Arendt

 

      Há sofrimentos que passam despercebidos porque não se encaixam nos estereótipos mais conhecidos. O ARFID ou TARE é um deles. Diferentemente de outros transtornos alimentares, aqui não há medo de engordar, busca por magreza ou obsessão estética. Ainda assim, o sofrimento é real, persistente e, muitas vezes, profundamente limitante.

 

      Na clínica, já acompanhei pacientes que chegaram dizendo: “Eu sempre fui assim” ou “É só um paladar difícil”. Com o tempo, ficava claro que não se tratava de preferência alimentar, mas de um transtorno que restringia a vida, a saúde e as relações.

 

O que é TARE ou ARFID segundo o DSM-5 e a psicopatologia

 

      O Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo ( TARE ou ARFID - Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder) está descrito no DSM-5 e na CID-11 como um padrão persistente de restrição alimentar que leva a prejuízos significativos, sem relação com imagem corporal ou peso. Essa é a diferença central que o distingue da anorexia e da bulimia. Segundo Paulo Dalgalarrondo, o ARFID revela como o ato de comer pode ser atravessado por medo, repulsa ou experiências sensoriais aversivas, transformando uma necessidade básica em fonte constante de angústia. Os critérios diagnósticos incluem, entre outros:

 

  • Restrição alimentar significativa

  • Perda de peso ou dificuldade em ganhar peso (especialmente em crianças e adolescentes)

  • Deficiências nutricionais

  • Dependência de suplementos alimentares

  • Prejuízo psicossocial importante

 

      Tudo isso sem preocupação com forma corporal ou emagrecimento.

 

Quando comer vira ameaça

 

      No TARE, a comida não é vista como prazer, conforto ou controle. Ela é percebida como risco. Esse risco pode assumir diferentes formas, e a clínica mostra que nem sempre ele é facilmente verbalizado. As apresentações mais comuns envolvem:

 

  • Medo intenso de engasgar, vomitar ou passar mal

  • Repulsa a texturas, cheiros ou cores de alimentos

  • Evitação baseada em experiências negativas anteriores

  • Seletividade alimentar extrema

  • Ansiedade intensa diante de refeições

 

      Com o tempo, a alimentação vai se estreitando até se tornar um território de constante vigilância.

 

TARE ou ARFID não é “frescura”, nem escolha

 

      Um dos maiores equívocos — e uma das maiores fontes de sofrimento — é tratar o ARFID como capricho, birra ou exagero. Isso vale especialmente quando o transtorno aparece na infância, mas também quando persiste na vida adulta. Na prática clínica, vejo o quanto esse julgamento agrava o quadro. A pessoa passa a se sentir incompreendida, pressionada e culpada por algo que não controla. Comer deixa de ser apenas difícil; torna-se um campo de vergonha.

 

      O sofrimento não está no “não gostar” do alimento, mas na incapacidade de lidar emocionalmente com ele.


Por que o TARE surge?

      

      O TARE também não tem causa única. Ele emerge da interação entre fatores emocionais, sensoriais, psicológicos e, em alguns casos, experiências traumáticas relacionadas à alimentação. Entre os fatores frequentemente associados estão:

 

  • Hipersensibilidade sensorial

  • Experiências negativas com comida (engasgos, vômitos, mal-estar)

  • Ansiedade elevada

  • Dificuldade de regulação emocional

  • Transtornos do neurodesenvolvimento (em alguns casos)

  • Histórico de pressão excessiva para comer

 

      Ao longo da clínica, percebo que o TARE muitas vezes é mantido pelo medo — e não pela vontade.

 

As consequências do TARE ou ARFID ao longo da vida

 

      Embora menos conhecido do que outros transtornos alimentares, o ARFID pode trazer consequências significativas, especialmente quando não reconhecido precocemente. Entre os impactos mais comuns estão:

 

  • Déficits nutricionais importantes

  • Prejuízos no crescimento e desenvolvimento

  • Evitação de situações sociais envolvendo comida

  • Ansiedade antecipatória

  • Isolamento

  • Dependência excessiva de rotinas rígidas

 

     A vida social, familiar e profissional vai sendo organizada em função da restrição alimentar.

 

TARE ou ARFID na vida adulta: um sofrimento pouco falado

 

      Embora muitas pessoas associem o ARFID à infância, ele também pode persistir — ou surgir — na vida adulta. Nesses casos, o sofrimento costuma ser ainda mais silencioso, pois há vergonha em admitir dificuldades com algo considerado “básico”. Na clínica, já acompanhei adultos que passaram anos evitando viagens, encontros e ambientes sociais por medo da comida. Não era falta de vontade de conviver, mas medo real e intenso.


Ortorexia e TARE não são a mesma coisa

 

Embora a ortorexia e o Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (ARFID) envolvam restrições alimentares, as motivações psicológicas, os padrões de comportamento e os impactos clínicos são diferentes. Compreender essa distinção ajuda a evitar rótulos equivocados e favorece o cuidado adequado em psicoterapia. A tabela abaixo resume as principais diferenças:

 

Diferenças entre Ortorexia e ARFID

 

Critério

Ortorexia

ARFID (Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo)

Motivação principal

Busca obsessiva por “alimentação saudável”, “limpa” ou “pura”

Evitação alimentar por medo, aversão sensorial ou falta de interesse

Foco psicológico

Controle, perfeição e moralização da comida

Ansiedade, medo, sensibilidade ou desinteresse alimentar

Relação com o corpo

Geralmente não há distorção de imagem corporal

Também não há distorção de imagem corporal

Medo central

Medo de adoecer, “contaminar o corpo” ou perder controle

Medo de engasgar, vomitar, passar mal ou rejeição sensorial

Tipo de restrição

Alimentos considerados “não saudáveis”

Texturas, cheiros, cores, temperaturas ou grupos alimentares

Influência cultural

Alta influência de discursos de saúde, redes sociais e estilo de vida

Pouca influência cultural; padrão mais individual e persistente

Rigidez comportamental

Elevada rigidez e regras autoimpostas

Restrição baseada em ansiedade ou sensibilidade

Sofrimento subjetivo

Culpa intensa ao “transgredir” regras alimentares

Angústia antecipatória diante da alimentação

Impacto social

Isolamento por evitar refeições sociais

Dificuldade em contextos sociais que envolvem comida

Reconhecimento diagnóstico

Ainda não formalizado no DSM-5

Transtorno reconhecido no DSM-5

Risco nutricional

Pode existir, dependendo do grau de restrição

Frequente e clinicamente relevante

Resposta comum em clínica

Costuma resistir à flexibilização alimentar

Geralmente busca alívio do medo e da ansiedade

 Uma observação importante

 

Nem toda restrição alimentar é transtorno. O que diferencia cuidado com a alimentação de sofrimento psíquico é o grau de rigidez, angústia, prejuízo funcional e impacto na vida emocional e social. É por isso que uma avaliação clínica cuidadosa é essencial. Na psicoterapia, o objetivo não é rotular, mas compreender o sentido do comportamento alimentar e ajudar a pessoa a construir uma relação mais segura, flexível e saudável com a comida — e consigo mesma.

 

  

Existe tratamento? O papel da psicoterapia

 

      Sim, existe tratamento, e ele exige cuidado, paciência e abordagem especializada. A psicoterapia é fundamental para compreender os medos associados à alimentação e ampliar gradualmente o repertório alimentar e emocional. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) atua em:

 

  • Identificação dos medos centrais relacionados à comida

  • Trabalho com ansiedade e respostas de evitação

  • Exposição gradual e segura a alimentos temidos

  • Reestruturação de crenças catastróficas

  • Desenvolvimento de maior flexibilidade emocional

 

      Em muitos casos, o trabalho conjunto com nutricionista e médico é essencial.

 

Quando procurar ajuda?

 

      Se você ou alguém próximo vive uma relação marcada por medo, evitação e sofrimento em torno da alimentação, mesmo sem preocupação com peso ou estética, isso merece atenção. O ARFID é um transtorno real — e tratável. Ao longo da minha prática clínica, vi pessoas redescobrirem o comer não como ameaça, mas como parte possível da vida.

 

Quando comer se torna difícil, cuidar é necessário

 

      O ARFID não é frescura, nem falta de vontade. É um transtorno que limita a vida e merece cuidado especializado. A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender esses medos, ampliar possibilidades e reconstruir a relação com a alimentação de forma gradual e respeitosa. Se sentir que precisa de ajuda, estou aqui para caminhar com você. Clique no botão abaixo e fale comigo hoje mesmo.

Ana Cláudia Melo – Psicóloga Clínica


 

Psicóloga Ana Cláudia Melo

CRP: 02/13277​

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Atendimento presencial:

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