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“Quem fala não faz”? Mitos sobre suicídio que atrapalham o cuidado

  • Foto do escritor: Ana Claudia Melo
    Ana Claudia Melo
  • 26 de jan.
  • 4 min de leitura
mitos sobre o suicídio

 Aviso importante ao leitor: este é um tema sensível. Se, em algum momento da leitura, você se sentir desconfortável, identificado(a) ou perceber que precisa de ajuda agora, clique no botão de ajuda imediatamente. Cuidar de você vem antes de qualquer leitura.

 

      

     Escrevo este artigo como psicoterapeuta e como alguém que, ao longo de muitos anos de clínica, testemunhou o impacto negativo que frases prontas e crenças equivocadas têm sobre pessoas em sofrimento. Mitos não são inofensivos. Eles silenciam, afastam do cuidado e aumentam o risco. Se você precisa de ajuda agora, clique no botão de ajuda.


 

Por que os mitos são perigosos

 

      Mitos funcionam como atalhos cognitivos. Eles parecem explicar, mas na verdade simplificam demais um fenômeno complexo. A ciência é clara ao afirmar que a ideação suicida envolve múltiplos fatores e que a comunicação responsável é um dos principais elementos de prevenção. Organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e associações de psiquiatria recomendam combater mitos como parte das estratégias de saúde pública. Quando acreditamos neles, tendemos a minimizar sinais, julgar quem sofre e adiar a busca por ajuda.

 

Mito 1: “Quem fala não faz”

 

      Esse é, talvez, o mito mais comum — e um dos mais perigosos. Falar sobre dor, desesperança ou desejo de não existir não é encenação. Em muitos casos, é um pedido de ajuda. Estudos internacionais indicam que expressar sofrimento pode ser uma oportunidade crucial de intervenção. Desqualificar a fala faz com que a pessoa se cale, aumentando o isolamento e o risco.

 

  • Falar pode ser tentativa de aliviar a dor.

  • Falar pode ser busca de apoio.

  • Falar abre a possibilidade de cuidado.

 

      Se alguém falou com você, escute. Se você sente vontade de falar, busque ajuda.


 

Mito 2: “É fraqueza”

 

Ideação suicida não é sinal de fraqueza, falta de caráter ou ausência de vontade. Ela se relaciona a dor psíquica intensa, muitas vezes associada a quadros como depressão, ansiedade, luto complicado, trauma e estresse crônico. A psicopatologia, desde Karl Jaspers, nos ensina a compreender o sofrimento a partir da experiência subjetiva. Rotular como fraqueza desumaniza e impede o acesso ao cuidado.

 

Mito 3: “É falta de fé”

 

      Pessoas de todas as crenças — ou sem crença religiosa — podem vivenciar ideação suicida. Reduzir o sofrimento a uma questão espiritual não substitui avaliação clínica e pode gerar culpa adicional. A fé pode ser fator de proteção para alguns, mas não é tratamento. Psicoterapia e, quando indicado, acompanhamento psiquiátrico são recursos baseados em evidências.

 

Mito 4: “É só chamar atenção”

 

      Atenção, quando há dor, chama-se cuidado. A ideia de “chamar atenção” costuma ser usada para desqualificar o sofrimento e afastar responsabilidades. Na clínica, vejo que pessoas rotuladas assim tendem a interromper pedidos de ajuda, o que aumenta o risco. Mesmo quando há ambivalência, o sofrimento é real e merece acolhimento.

 

Mito 5: “Falar sobre suicídio incentiva”

 

      Este mito foi amplamente estudado e não encontra respaldo científico quando a abordagem é responsável. Falar com cuidado, sem sensacionalismo, reduz estigma e facilita a procura por ajuda. O que aumenta risco é o silêncio, a romantização e a exposição irresponsável. Informar com responsabilidade protege.

 

O que dizer (e o que evitar)

 

Quando alguém compartilha sofrimento, algumas atitudes ajudam — outras atrapalham:

 

Ajuda:

  • Escutar com atenção e respeito.

  • Validar a dor (“sinto muito que você esteja passando por isso”).

  • Incentivar ajuda profissional.

  • Permanecer disponível.

 

Evitar:

  • Minimizar (“vai passar”, “não é nada”).

  • Julgar ou moralizar.

  • Oferecer soluções simplistas.

  • Silenciar a pessoa.

 

     Esses cuidados são simples, mas fazem diferença.

 

O papel da psicoterapia

 

      A psicoterapia cria um espaço onde a pessoa pode falar sem medo, organizar pensamentos e reduzir o isolamento. Abordagens baseadas em evidências ajudam a trabalhar desesperança, rigidez cognitiva e a ampliar alternativas. Como terapeuta, vejo diariamente que ser escutado(a) com seriedade muda o curso do sofrimento. Se este texto tocou você, clique no botão de ajuda.

  

 

 Quando procurar ajuda

 

      Procure ajuda imediatamente se pensamentos de morte estiverem presentes, se a dor parecer insuportável, se houver sensação de aprisionamento ou se você não se sentir seguro(a). Não espere.

 

Onde procurar ajuda (Brasil)

  • CVV – Centro de Valorização da Vida: 188 (24h, gratuito) ou cvv.org.br

  • Emergência: 190 (Polícia) ou 192 (SAMU)

  • Psicoterapia e psiquiatria: serviços de saúde ou profissionais de confiança

 

Informação responsável salva vidas...

 

      Se você sente que precisa conversar agora, clique no botão de ajuda. A psicoterapia é um espaço de acolhimento, técnica e cuidado contínuo. Você não precisa atravessar isso sozinho(a).

Ana Cláudia - Psicóloga

  

 

Fontes e referências (fundamentação científica)

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Preventing suicide: a global imperative.

  • American Psychiatric Association (APA). Suicide prevention and practice guidelines.

  • The Lancet Public Health. Suicide and societal factors.

  • Jaspers, K. Psicopatologia Geral.

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais.

 

 

 

Psicóloga Ana Cláudia Melo

CRP: 02/13277

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