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Não queira um transtorno para chamar de “seu”

  • Foto do escritor: Ana Claudia Melo
    Ana Claudia Melo
  • 14 de jan.
  • 4 min de leitura
Rosto humano com uma engrenagem no local do cérebro


“A doença não é algo que se possui; é algo que se atravessa.” (Karl Jaspers, Psicopatologia Geral)

 

      Escrevo este texto movida por uma inquietação clínica e humana. Nos últimos anos, tenho observado um fenômeno preocupante: a romantização da doença mental e do sofrimento psíquico. Não falo aqui de conscientização — que é necessária e urgente —, mas de algo diferente e mais perigoso: transformar transtornos, diagnósticos e até medicamentos psicotrópicos em marcadores de identidade positiva.

 

      Recentemente, vi, no Instagram, um vídeo de jovens que formavam um grupo musical. Ao se apresentarem, diziam seus nomes e, logo em seguida, os medicamentos que tomavam: sertralina, fluoxetina, escitalopram, clonazepam, entre outros. Falavam sorrindo, como se aquilo fosse um traço de personalidade, algo curioso ou até desejável. Aquilo me causou um incômodo profundo — não por julgamento, mas por respeito ao sofrimento que conheço tão bem na clínica.

 

Transtorno não é identidade

 

      Ao longo de mais de vinte anos de atuação clínica, posso afirmar com responsabilidade: ninguém escolhe adoecer psiquicamente. Transtornos mentais e emocionais não são acessórios identitários, nem traços de estilo de vida. Eles surgem, muitas vezes, como resultado de uma dor intensa, persistente e incapacitante. Na prática psicoterápica, vejo o outro lado dessa narrativa “leve” e romantizada. Vejo pessoas que não conseguem sair da cama, que perderam vínculos, empregos, projetos e, em alguns casos, o próprio sentido de viver. A despeito da estética agradável que alguns conteúdos exibem, a realidade do sofrimento psíquico é dura, solitária e, por vezes, devastadora.

 

A banalização do sofrimento psicológico

 

      É claro que falar abertamente sobre saúde mental é um avanço civilizatório. O silêncio histórico gerou estigma, exclusão e negligência. Conquanto isso seja verdade, há uma linha muito tênue entre falar para cuidar e falar para banalizar. Quando diagnósticos viram rótulos desejáveis, algo se perde no caminho.

 

      Hoje, parece que ter TDAH, estar no espectro autista, viver com depressão ou ansiedade passou a funcionar, em alguns contextos, como um selo de singularidade positiva. Isso distorce profundamente a compreensão do que é um transtorno. Transtorno não distingue; transtorno limita. Ele não torna alguém especial — torna a vida mais difícil.

 

Medicamento não é troféu

 

      Outro ponto que me preocupa é a forma como medicamentos psicotrópicos vêm sendo tratados. Na clínica, sei o peso que existe por trás de cada prescrição. Medicamentos salvam vidas, sim, mas também carregam histórias de dor, tentativas frustradas de melhora, crises silenciosas e muita ambivalência emocional.

 

     Ninguém toma um antidepressivo porque a vida está ótima. Ninguém recorre a um ansiolítico porque está plenamente regulado emocionalmente. Quando vejo o uso de medicação tratado como algo “cool” ou neutro, penso em quantas pessoas sofrem profundamente para aceitar que precisam daquele recurso — e o fazem com vergonha, medo e resistência.

 

Quando o sofrimento vira linguagem social

 

      Há também um componente cultural importante. Vivemos em uma sociedade que perdeu a capacidade de lidar com a dor ordinária da vida. Tudo precisa ser nomeado, explicado e, muitas vezes, exibido. A psicopatologia, porém, não pode virar linguagem de pertencimento social. Na clínica, percebo que muitos jovens chegam confusos, perguntando se “têm algo”, quando, na verdade, estão atravessando crises existenciais, frustrações normais do amadurecimento ou dores relacionais profundas. Transformar toda dor em diagnóstico não ajuda — adoece ainda mais.

 

O sofrimento psíquico é coisa séria

 

      Do ponto de vista clínico e ético, preciso dizer com clareza:

  • transtornos mentais incapacitam;

  • transtornos isolam;

  • transtornos destroem vínculos;

  • transtornos tiram vidas.

 

      Isso não é discurso alarmista, é realidade psicopatológica. Karl Jaspers já alertava para o perigo de banalizar a experiência do adoecimento psíquico, retirando-lhe o peso existencial e humano. A doença mental não é personagem — é travessia difícil.

 

A psicoterapia como espaço de verdade

 

      Na psicoterapia, especialmente a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental, trabalhamos para devolver ao sujeito algo fundamental: a distinção entre quem ele é e o que ele sofre. Você não é sua depressão. Você não é seu transtorno de ansiedade. Você não é seu diagnóstico. Isso precisa ser dito com firmeza e cuidado. Romantizar o transtorno impede a cura. Quando o sofrimento vira identidade, ele deixa de ser questionado. E tudo aquilo que não pode ser questionado não pode ser transformado.

 

Quando buscar ajuda de verdade

    

      Se você sente que está se agarrando a um rótulo para se sentir pertencente, ou se percebe que o sofrimento tem sido tratado de forma leviana ao seu redor, vale parar e refletir. Dor emocional merece respeito, cuidado e tratamento — não aplauso, não likes, não palco.

 

 

Um convite ao cuidado responsável

     

      Se este texto lhe causou incômodo, talvez ele tenha tocado em algo importante. A psicoterapia é um espaço para tratar o sofrimento com seriedade, ética e humanidade. Não para criar identidades adoecidas, mas para ajudar pessoas a viverem com mais autonomia, sentido e dignidade.Se sentir que precisa de ajuda, clique no botão “Fale comigo”. Cuidar da saúde mental é um ato de coragem — não de romantização.

Ana Cláudia Melo – Psicóloga

 

 

 

Psicóloga Ana Cláudia Melo

CRP: 02/13277

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